O Domínio de ‘KPop Demon Hunters’ e a Nova Estratégia Corporativa da Netflix
21 Janeiro 2026Se ainda subsistiam dúvidas quanto ao estatuto de KPop Demon Hunters enquanto fenómeno cultural, o mais recente relatório semestral de envolvimento da Netflix dissipa qualquer incerteza. A gigante do streaming proclamou a longa-metragem de animação como o título mais visto de sempre num período de seis meses. De acordo com o relatório “What We Watched”, que detalha as audiências entre julho e dezembro de 2025, a produção acumulou uns impressionantes 482 milhões de visualizações na segunda metade do ano passado. É relevante notar que este número exclui os primeiros dez dias de exibição após a estreia a 20 de junho, o que torna o feito ainda mais notável. A popularidade sem precedentes do filme, considerado um forte candidato aos Óscares após ter conquistado vários Globos de Ouro, é reforçada pelos vídeos com as letras das músicas, que somaram 32 milhões de visualizações adicionais.
Séries em Destaque e o Regresso dos Gigantes
No segmento das séries, a segunda temporada de Wednesday liderou incontestavelmente as preferências televisivas. Estreada a 6 de agosto, a série registou 123,9 milhões de visualizações até ao final do ano, impulsionando também a primeira temporada, que ocupou o oitavo lugar com 47 milhões de visualizações. Não obstante uma janela de oportunidade extremamente reduzida, Stranger Things 5 ascendeu ao segundo lugar das séries mais vistas no segundo semestre de 2025, com 93,5 milhões de visualizações. Este dado é particularmente surpreendente, visto que contabiliza apenas as primeiras horas de disponibilidade do final da série, que estreou na véspera de Ano Novo. As temporadas anteriores da saga de Hawkins também marcaram presença no Top 10, demonstrando a longevidade do formato.
O relatório clarifica igualmente a decisão de renovar Untamed. Inicialmente planeada como uma minissérie, a produção garantiu o terceiro lugar com 92,8 milhões de visualizações, superando uma concorrência feroz. Ryan Murphy manteve a sua relevância habitual com The Ed Gein Story, parte da antologia Monster, que alcançou a sexta posição. Até o documentário Sean Combs: The Reckoning, estreado em dezembro, conseguiu entrar no top 7. No cômputo geral, os utilizadores da Netflix consumiram 96 mil milhões de horas de conteúdo entre julho e dezembro, um aumento de mil milhões face ao semestre anterior.
Uma Mudança de Paradigma: O Cinema e a Aquisição da Warner Bros.
Para além dos números de audiência, a empresa atravessa um momento de transformação estratégica profunda. Ted Sarandos e Greg Peters, co-CEOs da Netflix, revelaram durante a apresentação de resultados do quarto trimestre de 2025 que a empresa debateu internamente, no passado, a criação de um negócio de distribuição cinematográfica. Embora a prioridade tenha recaído sempre sobre o crescimento do streaming, a aquisição dos estúdios da Warner Bros. Discovery — num negócio de 83 mil milhões de dólares a pronto pagamento — alterou essa postura. Sarandos, que anteriormente classificara a experiência de ir ao cinema como “ultrapassada”, retificou a sua posição, afirmando que “o contexto muda e as perceções também”.
A Netflix comprometeu-se a manter os filmes da Warner Bros. numa janela de exibição exclusiva em salas de cinema de 45 dias. A empresa vê agora o modelo teatral como um complemento eficaz ao streaming, impulsionada pelo sucesso de bilheteira do final de Stranger Things 5 e das exibições limitadas de KPop Demon Hunters. Spence Neumann, diretor financeiro da Netflix, sublinha que o negócio com a WB funcionará como um acelerador, prevendo-se que 85% da receita da entidade combinada provenha do streaming, beneficiando agora dos estúdios de cinema e TV da Warner. A transação deverá estar concluída num prazo de 12 a 18 meses, dependendo ainda do escrutínio dos reguladores e da pressão exercida pela oferta hostil da Paramount Skydance.
Inovação Tecnológica e a Batalha pela Atenção
Numa altura em que o YouTube, o TikTok e o Instagram dominam o consumo móvel, a Netflix prepara-se para redesenhar a sua aplicação, com lançamento previsto para o final de 2026. O objetivo é adaptar a plataforma a uma paisagem de vídeo onde a lógica social impera. A atualização servirá de base para uma experimentação contínua, centrada numa integração mais profunda de feeds de vídeo verticais, um formato familiar aos utilizadores de outras redes sociais. Greg Peters sugere que esta funcionalidade poderá incluir clipes baseados em novos tipos de conteúdo, como os podcasts em vídeo, um setor onde a Netflix está a investir fortemente através de parcerias com o Spotify e a iHeartMedia e lançamentos com personalidades como Pete Davidson.
Ted Sarandos refletiu sobre esta mudança, notando que a concorrência já não se resume a outros serviços de streaming, mas a toda a indústria do entretenimento. Com os Óscares e a NFL no YouTube e a Apple a competir por Emmys, as linhas tradicionais do consumo televisivo estão a esbater-se. Elizabeth Stone, CTO da empresa, ressalva contudo que a intenção não é imitar o TikTok, mas sim fortalecer a descoberta de entretenimento. Financeiramente, a estratégia parece estar a dar frutos: em 2025, a Netflix gerou 45,2 mil milhões de dólares em receitas, ultrapassando a marca dos 325 milhões de subscrições pagas.
