SEM A PARTICIPAÇÃO DE TODOS NÃO HÁ DEMOCRACIA

eugenio-fonsecaEscrevo no dia em que se assinala um dos maiores acontecimentos da história de Portugal. Foi há 41 anos, que nasceu um tempo novo. Todos os dias nascem dias novos, porque nenhum, jamais, é igual ao anterior. Mas o 25 de abril de 1974 não foi apenas um novo dia, mas sobretudo, um dia novo, porque surgiu de uma madrugada muito especial. Concidadãos nossos arriscaram acreditar que era possível alcançar os ideais de um país mais justo para que todos pudessem ter condições de vida com maior dignidade. Sabiam que isso só seria alcançado se conseguíssemos criar uma sociedade mais fraterna e livre, contando com a participação responsável de todos e o acesso universal às oportunidades de contribuir para o desenvolvimento integral da nossa Lusa Pátria. Homens, profissionalmente, preparados para combates bélicos, assumiram-se, nessa madrugada, como mensageiros de uma novidade libertadora. É certo que se puseram a caminho transportados por veículos bélicos e munidos de instrumentos agressivos. Mas, nos seus corações levavam valores contrários aos que esses veículos e armas simbolizavam. Eles tinham a consciência de que nem todos iriam gostar da novidade que transportavam, pois ela iria fazer com que muitos abdicassem de privilégios e da concentração de poderes diversos, assim como de repartir melhor a riqueza existente. Bem sabemos, pela experiência de cada um e cada uma, que não é fácil deixar o que nos permite certo tipo de seguranças humanas. Por isso, embora as intenções dos “promotores de abril” fossem pacíficas, poderiam ser mal recebidas. A mudança gera sempre desconfianças e medos. Essas reações eram inevitáveis. Felizmente, não chegaram a deixar marcas, irreparáveis, de ações violentas.

Regra geral esta celebração do “Dia da Liberdade”, coincide com uma outra “revolução” mais profunda que sucedeu há mais de dois milénios. Alguém, embora de condição divina, quis assumir a nossa condição humana para nos conduzir pelos caminhos da “vida em abundância” e para sempre. Por isso, o grande “Dia da Liberdade” tem um significado mais profundo. É na celebração do mistério da Páscoa Cristã que se encontra o fundamento da liberdade verdadeira que se expressa, humanamente, em acontecimentos terrenos, como foi o 25 de abril. Neste dia aconteceu páscoa em Portugal, porque foi sepultado um regime autoritário e caduco e, durante a madrugada, surgiu um país com uma nova vida, pulsando de esperança e de liberdade. Cada português e portuguesa vibrou ao ritmo das suas tradições e culturas. Com entusiasmos diferentes, é certo, mas unidos na mesma convicção de que estava a acontecer a libertação e a possibilidade de dar ao povo o protagonismo do seu próprio destino.

Sem ser nos lugares nevrálgicos da transformação do Regime, como foram o Largo do Carmo, a Praça do Comércio ou a Avenida da Liberdade, sempre fiquei com a sensação de que não se viveu este histórico acontecimento com tanta euforia como na região de Setúbal. Logo que teve a certeza de que já vivia num país em que a rua não era apenas espaço para circular ou as crianças se divertirem (muitas vezes importunados pelas forças de segurança),mas poderia ser, a partir de agora, o lugar apropriado para manifestar sentimentos e opiniões, até aí, reprimidos ou cuidadosamente controlados.

Passados 7 dias, toda a gente voltou às ruas para defender a sua dignidade que tem no direito ao trabalho, com condições justas, uma das suas maiores expressões. Até, hoje, só vi duas vezes o povo da Região de Setúbal sair à rua unidos pelas mesmas causas, esquecendo ideologias políticas ou pertenças religiosas: a primeira e a mais significativa na celebração do 1.º de maio em liberdade; a outra foi pela libertação dos nossos irmãos timorenses da opressão imposta pela Indonésia. Já tivemos outros motivos para fazer o mesmo, mas sem igual sucesso. É pena.

Passados 41 anos, Portugal é outro país. Tem-lhe sido difícil crescer em democracia. É certo que algumas dificuldades se poderiam ter evitado e, hoje, teríamos maior maturidade política. Mas haverá alguma forma de crescimento que não acarrete muitas novidades que obrigam a decisões, nem sempre acertadas e algumas até prejudiciais.

Nos anos oitenta, vivemos na nossa região tempos que levou muita gente a ter saudades das “cebolas e do trigo do Egito”, ou seja, do antigo regime, tão grandes e dramáticas foram as dificuldades vividas. Hoje, é o país inteiro a ter essa sensação, pelas contradições existentes entre as condições de vida em que se encontram e as que abril lhes garantiu. É verdade que há muita gente sem trabalho, que a riqueza, por todos gerada, não tem sido distribuída com equidade e alguma dela até tem ido para mãos sujas de corrupção; que até temos gente qualificada a sair, forçosamente, do país para conseguir ter uma vida digna. Há muitas razões que nos podem levar, por vezes, a pensar se não seria melhor ficarmos como estávamos há 4 décadas.

Apesar de tudo o que não era provável acontecer num regime que tem como matriz a participação e decisão de todos, abril valeu a pena. Aumentaram os níveis de escolaridade (o analfabetismo foi quase erradicado) porque as escolas abriram as portas a todos; conseguiu-se a possibilidade de igual acesso aos cuidados de saúde, com a criação do Serviço Nacional de Saúde; terminou uma guerra que ceifou tantas vidas jovens; já são residuais os “bairros de lata”; adquirimos maior credibilidade internacional; podemos dizer e escrever o que pensamos. Tudo isto ainda com muitas imperfeições e sem consequências efetivas no quotidiano de muita gente. Mas há uma conquista que se mantém inalterável. É lamentável que ainda não a tenhamos sabido aproveitar melhor em favor de todos. Refiro-me à possibilidade de participação na vida pública. Se deixarmos, como temos feito muitas vezes, o poder de escolha e de decisão nas mãos de uns quantos, assim estaremos a tornar mais ténue a luz que raiou naquela bela madrugada de abril.

Há uma realidade inquestionável: não se conhece melhor forma de organização politica que a atual. Depende de nós valorizá-la ou desacreditá-la. Ninguém está dispensado de fazer a sua parte.

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